Inventário de emissões de GEE: por onde começar
Clientes, bancos e o mercado regulado de carbono vão pedir o mesmo documento. Este guia mostra como fazemos o primeiro inventário de uma empresa e como estruturar os dados para que o segundo não comece do zero.
Contexto
Quem vai pedir o seu inventário
A pressão vem por três lados. Grandes compradores precisam calcular o escopo 3 deles e pedem os dados aos fornecedores. Bancos e fundos passaram a incluir indicadores de clima na análise de crédito. E a regulação chegou com a Lei 15.042/2024, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE).
Pela lei, operadores de instalações que emitem mais de 10 mil tCO₂e por ano terão de apresentar plano de monitoramento e relato anual de emissões. Acima de 25 mil tCO₂e, também passam a ter obrigação de conciliação periódica. A implantação é por fases: a regulamentação está em curso em 2025 e 2026, e o cronograma de monitoramento colocado em consulta pública prevê início por setores a partir de 2027 e 2028. Uma usina de açúcar e etanol ou uma indústria com caldeira a combustível fóssil pode passar desse limite com facilidade.
Método
O primeiro inventário em cinco etapas
No Brasil, a referência é o Programa Brasileiro GHG Protocol, com ferramenta de cálculo própria e fatores de emissão nacionais.
Limites
Quais unidades entram e por qual abordagem. Usamos quase sempre controle operacional. Ano base: o último ano fechado.
Fontes
Combustíveis em caldeiras, fornos, geradores e frota; gases refrigerantes; emissões de processo; efluentes; fertilizantes nitrogenados e calcário no campo; eletricidade comprada.
Dados
Notas de combustível, faturas de energia, ordens de serviço de recarga de ar condicionado e câmaras frias, inventário de resíduos, consumo de insumos agrícolas.
Cálculo
Fatores do GHG Protocol Brasil e os potenciais de aquecimento global adotados na ferramenta. Toda premissa fica registrada na memória de cálculo.
Relato
Relatório com os escopos separados, premissas e exclusões. Verificação por terceira parte é opcional, mas alguns compradores exigem.
Escopos
Escopos 1, 2 e 3 com exemplos reais
O escopo 1 reúne o que é queimado ou liberado dentro da operação: diesel da frota e dos geradores, GLP e GNV de empilhadeiras e fornos, lenha e bagaço em caldeiras, vazamento de refrigerantes, emissões de processo e, no campo, fertilizante nitrogenado e calagem. O escopo 2 é a energia comprada, calculada com o fator do Sistema Interligado Nacional. O escopo 3 é a cadeia: insumos, frete terceirizado, resíduos destinados por terceiros, viagens, uso e descarte dos produtos.
Quase todas as empresas começam por 1 e 2 e escolhem no escopo 3 as categorias mais relevantes ou as que o cliente pede. Isso é aceito pela metodologia, desde que as exclusões estejam declaradas.
Erros que encontramos com frequência
- Refrigerantes esquecidos. Uma recarga grande de R-404A em câmara fria pode pesar mais que a frota inteira
- Frota própria contada no escopo 1 e de novo como frete no escopo 3
- Fator internacional genérico onde existe fator nacional
- Premissas não documentadas, o que impede repetir o cálculo no ano seguinte
A última é a mais cara. O primeiro inventário mostra o tamanho das emissões, mas o que o cliente e o regulador vão olhar é a evolução ano a ano. Por isso, desde o primeiro ciclo, estruturamos a coleta mensal por setor, com um registro único de fontes de emissão e fechamento de período. O relatório anual passa a ser uma consulta, e não um projeto.
Perguntas frequentes
Dúvidas comuns
Minha empresa já é obrigada a fazer inventário?
A obrigação do SBCE depende de regulamentação e virá por setor e por fases. A cobrança pela cadeia de fornecimento já existe. Começar agora cria histórico, e histórico é o que permite mostrar redução.
Quanto tempo leva o primeiro inventário?
Para uma operação de médio porte com dados organizados, algumas semanas. O que mais pesa é a coleta de combustível, energia e refrigerantes.
Preciso medir o escopo 3 desde o início?
Não. Comece por 1 e 2 e inclua as categorias de escopo 3 mais relevantes, declarando o que ficou de fora.
Inventário serve para gerar crédito de carbono?
São coisas diferentes. O inventário mede emissões da empresa. Crédito vem de projeto de redução ou remoção, com metodologia e certificação próprias. O inventário é a base para decidir onde reduzir.
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